Diante das desigualdades no território Amazônico, as diretrizes e normativas da ONU tornam-se ferramentas de cobrança para políticas públicas que garantam alimentação de qualidade para a maior floresta tropical do mundo.
A insegurança alimentar na Amazônia é um problema que, para ser resolvido, não pode ser analisado sem olhar para as mudanças climáticas que impactam a região. Sendo uma região tão rica, que produz uma diversidade de alimentos que poucas regiões do planeta conseguem igualar e, ainda assim, convive com índices alarmantes de insegurança alimentar e nutricional, onde 6 dos 9 estados que a compõe apresentam a proporção de domicílios em insegurança alimentar acima da média nacional.
Foi essa lacuna, entre a abundância e a fome, que moveu a pesquisadora Ananda Ridart, fundadora e diretora executiva do Aruanã Instituto Pan-Amazônico, e sua equipe, a transformar uma inquietação em dado concreto e um levantamento técnico em ferramenta de incidência.
A nota técnica nº 01 “Segurança alimentar e mudanças climáticas no Acre: fragmentações, vulnerabilidades e caminhos para a integração”, lançada pelo Aruanã em Belém, é a primeira de uma série que o instituto pretende produzir sobre a relação entre segurança alimentar e clima nos estados da Amazônia Legal e da Pan-Amazônia.
O Acre foi escolhido como território piloto e a partir dele, a equipe reuniu dados sociodemográficos, indicadores de insegurança alimentar e nutricional e informações sobre produção agrícola em um dashboard interativo, cruzando essas informações com as vulnerabilidades climáticas de cada grupo populacional. O resultado permite enxergar, lado a lado, quem produz alimento no território e quem, de fato, consegue acessá-lo.
Além da análise quantitativa, a pesquisa se debruçou sobre documentos estaduais ligados à segurança alimentar e às mudanças climáticas, verificando se as políticas públicas do Acre dialogam entre si e se consideram, de maneira efetiva, a presença de populações socialmente marginalizadas. Por meio de uma matriz de classificação, cada documento recebe uma pontuação, um método que transforma um problema muitas vezes tratado de forma abstrata em algo mensurável e comparável entre estados.
Para Ananda, essa forma de pesquisar, cruzando rigor técnico com a experiência de quem vive e atua nos territórios amazônicos, tem relação direta com sua passagem pelo ECOAR.
Foi durante o projeto, promovido pelo IDDH, que ela teve contato aprofundado com as diretrizes e normativas internacionais sobre segurança alimentar, entendendo como esses marcos deveriam se refletir, e muitas vezes não se refletem, nas políticas públicas nacionais, estaduais e municipais.
Essa vivência deu à pesquisadora e sua equipe um repertório para questionar se o que está garantido no papel chega de fato às comunidades amazônicas.
O ECOAR não formou apenas uma defensora mais preparada para acessar espaços internacionais, mas plantou a semente de uma pesquisa que agora devolve à população amazônida dados produzidos a partir do olhar da região sobre si mesma.
Ao expor as fragilidades, conexões e desconexões, entre política alimentar e política climática, o Aruanã oferece a lideranças comunitárias, gestores públicos e legisladores um material concreto para cobrar e construir políticas mais justas e eficazes.
Esse é o tipo de entrega que confirma o propósito do projeto ECOAR: transformar formação técnica em ferramenta real de defesa de direitos e incidência política.